A escassez hídrica não é o problema… a subvalorização da água é

Compartilhar por email
Compartilhar no LinkedIn

Este artigo resume os resultados de uma sessão realizada durante a World Water Week 2015, conduzida pela Valuing Nature, que explorou os benefícios e as limitações do uso de métricas de valoração da água e apresentou uma série de estudos de caso. Um dos principais aprendizados é que as organizações precisam olhar além da escassez hídrica e considerar o valor da água para apoiar seus processos de tomada de decisão.

Frequentemente apontada como um dos riscos ambientais mais importantes no mundo, a escassez hídrica é, na verdade, um efeito, e não uma causa, de problemas mais profundos, entre eles a degradação do capital natural, construído e social (incluindo instituições) e a alocação e o uso inadequados da água, tudo isso agravado pelas mudanças climáticas.

É comum esquecer que a escassez hídrica é, na verdade, criada pelas próprias atividades econômicas e sociais da sociedade. Essa distinção entre o efeito e sua causa é sutil, mas importante para compreender melhor os riscos relacionados à água e desenvolver soluções eficientes. As métricas de escassez hídrica, baseadas na razão entre o volume de água utilizado e os recursos disponíveis, são pouco eficientes para informar sobre os impactos relacionados à água. Elas podem, inclusive, induzir a tomada de decisão a erros, já que uma região com alta escassez hídrica não necessariamente apresenta impactos ambientais ou sociais negativos, e o oposto também é verdadeiro.

Para ilustrar esse ponto, pense nos países da África Subsaariana, que não são classificados como regiões de escassez hídrica, embora suas comunidades locais sofram bastante com a falta de acesso à água devido a lacunas de investimento no desenvolvimento da infraestrutura e das instituições necessárias. Por outro lado, considere um país com alta escassez hídrica, como os Emirados Árabes Unidos, que possui o poder econômico para compensar a falta de água, resultando em baixas externalidades negativas no geral. Considere também a Suíça, que enfrenta alta escassez hídrica em algumas regiões todos os verões, mas apresenta impacto negativo insignificante graças a instituições e leis eficientes de gestão da água. Compreender o valor que as diferentes partes interessadas obtêm da água dentro de uma bacia hidrográfica, seja ele negativo ou positivo, é essencial para lidar com as questões hídricas. Na maioria das vezes, os benefícios e custos associados à água que utilizamos e da qual dependemos são subestimados. A água é subvalorizada.

A valoração da água é o exercício de medir, qualitativa ou quantitativamente (por exemplo, em USD/m³), o valor que diferentes partes interessadas obtêm dos recursos hídricos. Esse valor pode ser negativo, devido à falta de água, ou positivo, devido à contribuição da água para a produção de bens e para o bem-estar da população. Existem diversas técnicas de valoração, mas o objetivo aqui não é fazer uma revisão delas. As métricas de valoração da água são indicadores mais úteis para informar sobre impactos e riscos do que as métricas de escassez hídrica.

O valor da água deve refletir o investimento necessário para alcançar uma oferta e uma demanda sustentáveis de água em nível local. Esses dois componentes são essenciais para a gestão sustentável da água:

  • No componente de oferta hídrica, é preciso reconhecer e preservar as infraestruturas naturais e construídas que fornecem recursos hídricos em uma determinada localidade. A queda nos níveis de capital natural, como a degradação ou a perda de florestas e áreas úmidas, já está afetando os recursos hídricos e a economia.

  • No componente de demanda hídrica, o principal problema é a disputa por recursos, impulsionada pelo aumento da atividade econômica (incluindo a agricultura) e pelo crescimento demográfico, e agravada por instituições inadequadas.

A alocação sustentável dos recursos hídricos, apoiada por instituições bem estruturadas e combinada com a proteção das fontes de água nos ecossistemas naturais, são questões centrais a serem enfrentadas. Os três pilares da sustentabilidade, o econômico, o ambiental e o social, precisam ser considerados nos dois componentes, como mostra a tabela abaixo.

Para ilustrar o uso das métricas de valoração da água, alguns estudos de caso são resumidos a seguir. Todos foram apresentados durante uma sessão realizada na World Water Week (WWW) 2015, que explorou o potencial dessas novas métricas para melhorar a tomada de decisão. Cerca de 90 profissionais da área de água e executivos de sustentabilidade participaram da sessão, conduzida pela Valuing Nature. Um foco especial foi dado à identificação do “caso de negócio” por trás da gestão da água (ou boa governança hídrica), trazendo à tona soluções que fazem sentido do ponto de vista econômico. A conexão dessas métricas com a economia é essencial, já que a maioria das soluções depende de novos mecanismos de financiamento e instituições inovadoras. Os estudos de caso apresentados foram os seguintes:

  • O World Resources Institute demonstrou o valor futuro sob risco nos setores agrícola e energético dos Estados Unidos, relacionado a questões hídricas. O estudo mostrou que, nos Estados Unidos, USD 1,2 bilhão em lavouras de milho, soja e trigo estão ameaçados devido a altos níveis de conflitos hídricos agroindustriais. De forma semelhante, USD 21 bilhões em vendas de eletricidade poderiam enfrentar riscos relacionados à água. Esse estudo de caso ilustra bem a conexão com a economia, preparando o terreno para um plano de mitigação conjunto envolvendo os setores público e privado.

  • A Forest Trends, uma pequena ONG sediada em Washington DC, demonstrou o retorno sobre o investimento em infraestrutura verde como complemento à infraestrutura cinza para o abastecimento de água da cidade de Lima, no Peru. O estudo calculou o custo de infraestrutura por metro cúbico de água fornecida para diferentes tipos de infraestrutura verde e cinza. Determinados tipos de infraestrutura verde se mostraram muito mais eficientes do que as soluções de infraestrutura cinza. Um portfólio combinando infraestrutura verde e cinza para o abastecimento de água em Lima reduziria os custos em quase 20% em comparação a um projeto majoritariamente baseado em infraestrutura cinza, incluindo dessalinização.

  • A Engie, uma multinacional de energia, mostrou como contabilizar o valor total da água relacionado a um projeto de reciclagem de águas residuais em uma região de alta escassez hídrica próxima a Perth, na Austrália. O projeto de reciclagem apresentou um benefício claro tanto para a Engie quanto para as comunidades locais e os ecossistemas. O benefício estimado chegou a 3,27 AUD/m³ para as diferentes partes interessadas, com uma parcela significativa beneficiando as comunidades locais.

  • A Valuing Nature apresentou como ajudou uma ONG local na Bolívia a medir o valor que o setor agrícola obtém das florestas locais por meio de seus serviços relacionados à água. O estudo calculou que o valor marginal dos serviços de provimento de chuva e água doce é de 0,05 e 0,5 USD/m³, respectivamente. Esses valores foram usados para testar cenários futuros para o setor agrícola de Santa Cruz, incluindo o potencial de desmatamento e as mudanças climáticas. Esse setor pode enfrentar quedas de produtividade e receita no futuro caso o desmatamento continue. O estudo constatou que o custo de proteger a floresta é muito menor do que o impacto sobre a receita do setor agrícola, o que estabelece um caso de negócio claro para uma ação do setor privado na proteção das florestas locais.

  • Por fim, a WWF apresentou uma nova estrutura para analisar a valoração da água, definida em torno de dois eixos, a certeza e o beneficiário desse valor. Uma revisão de estudos de caso existentes, especialmente no setor privado, revelou que a maioria das organizações está focada apenas em seus próprios benefícios de curto ou médio prazo. No entanto, uma visão mais abrangente entre as partes interessadas e em prazos mais longos conduz a soluções com benefícios maiores, tanto para o setor privado quanto para a sociedade.

A sessão da WWW também explorou onde a valoração da água pode ser mais útil no dia a dia das organizações, identificando análises de custo benefício, decisões operacionais e de investimento, estratégia de negócios e conscientização como as áreas que mais podem se beneficiar dessa abordagem. Os desafios atuais relacionados à valoração da água também foram discutidos, mostrando que a integração dessas métricas nos processos de tomada de decisão ainda é um desafio e que mais casos de negócio precisam ser desenvolvidos e comunicados. As lacunas de padronização e de conhecimento interno nas organizações também foram apontadas como desafios importantes.

Em conclusão, a sessão ajudou a preparar o terreno para ações mais eficazes na resolução da crise hídrica, usando métricas de valoração da água para melhorar a tomada de decisão. Ir além das métricas de escassez hídrica e adotar métricas de valoração da água é o próximo passo que as organizações devem dar em breve.

Foto de Por Valuing Impact

Por Valuing Impact

Receba os insights mais recentes direto na sua caixa de entrada

Ao se inscrever para receber e-mails da Valuing Impact, você concorda com nossa Política de Privacidade. Tratamos suas informações com responsabilidade. Cancele a inscrição quando quiser.