O setor privado vem explorando novas formas de medir seu impacto social, indo além dos indicadores econômicos tradicionais. Foi desenvolvido um novo modelo baseado em estudos sobre determinantes sociais da saúde. O principal aprendizado é que nem todo emprego gera valor social positivo. Empregos a qualquer custo podem não ser a melhor estratégia para a criação de valor social compartilhado, e essa metodologia permite medir exatamente isso.
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Empregos estão no centro de toda campanha política, de todo discurso e indicador econômico e do imaginário coletivo. Eles existem para suprir necessidades básicas, como alimentação, moradia e vestuário. Também servem para permitir a ascensão social e, muitas vezes, dar sentido à vida das pessoas. Ao falar de empregos de forma geral, é comum associá-los automaticamente a um impacto social positivo.
No entanto, o discurso de que o desenvolvimento econômico, ou até mesmo uma política protecionista, geraria empregos para a maioria já se mostrou repetidas vezes equivocado, resultando em empregos temporários, por vezes inseguros e degradantes, sem contar os salários injustos. As desigualdades vêm aumentando em todas as regiões do mundo, e a sociedade tem cobrado cada vez mais do setor privado em relação ao impacto real dos empregos que gera. Medir o número de empregos, ou seu valor econômico agregado, não é um bom indicador de benefício social, da mesma forma que o PIB não se correlaciona com benefício social.
Os empregos podem ter efeitos tanto positivos quanto negativos sobre a vida das pessoas, influenciando inclusive a saúde e a expectativa de vida. O campo de pesquisa conhecido como “determinantes sociais da saúde” trata amplamente dessas relações, com uma primeira publicação de destaque em 2008 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os estudos publicados mostram que as desigualdades em saúde são impulsionadas por desigualdades sociais ao longo da vida, incluindo desigualdades de renda. Já foi demonstrado que o nível absoluto de renda de um país é um indicador fraco de benefício social. Em alguns países desenvolvidos, como os Estados Unidos, as desigualdades em saúde entre os mais pobres e os mais ricos chegam a mais de dez anos de expectativa de vida, sem sequer considerar questões de qualidade de vida. Na Europa Ocidental, essa diferença fica em torno de poucos anos entre os mais pobres e os mais ricos, enquanto nos países do leste europeu os resultados se aproximam dos observados nos Estados Unidos. E essas diferenças vêm exclusivamente de determinantes sociais, não de padrões comportamentais, fatores ambientais ou predisposições genéticas.
Para responder à pergunta “qual é o impacto social do emprego de forma geral?”, foi desenvolvido um modelo com base nos achados dos estudos sobre determinantes sociais da saúde, aplicado ao contexto do setor privado. A Nestlé aceitou explorar esse tema, como forma de apoiar sua estratégia de sustentabilidade voltada a direitos humanos e de ir além dos indicadores econômicos simplificados que apresentam o impacto dos empregos como puramente positivo.
O primeiro passo foi definir exatamente o que medir. O objetivo de qualquer pessoa é viver uma vida boa e longa, então a ambição do modelo é medir exatamente isso, apesar do desafio que isso representa. Esse conceito é conhecido como DALY, ou Anos de Vida Ajustados por Incapacidade, um indicador amplamente usado em saúde pública e formulação de políticas. O DALY reúne dois conceitos, “anos de vida perdidos” (morte precoce) e “anos vividos com incapacidade” (anos com lesões ou doenças). Medir o impacto do emprego e da renda sobre a vida das pessoas é a medida definitiva de impacto social de uma empresa.
O modelo desenvolvido se baseia em estatísticas do Eurostat e da OMS. Ele mostra que, para países europeus selecionados, um ano de salário equivalente no setor privado, para o 1º decil (os 10% mais pobres), resultaria em 0,1 a 0,2 DALY (10% a 20% de um ano de vida perdido), caindo para bem abaixo de 0,05 DALY no 5º decil (renda mediana) e chegando a 0 acima do 8º decil. Esses resultados são então aplicados a todos os salários pagos ao longo da cadeia de valor de uma empresa, classificados por faixa de decil de renda, o que resulta em diferentes impactos sobre a saúde.
Esses resultados mostram a relação entre renda e saúde dos trabalhadores, uma perspectiva totalmente nova tanto para o setor privado quanto para a valoração de impacto em capital social. A premissa subjacente é que as condições de emprego e as desigualdades do ambiente de trabalho são determinantes de saúde fundamentais no mundo, sobre os quais o setor privado exerce influência importante. Dentro das condições de emprego estão os elementos de renda, evidentemente, mas também os elementos de recompensa e controle, aspectos importantes para a construção de empregos melhores. Nem tudo se resume a dinheiro.
Um white paper publicado resume os achados desse modelo aplicado ao caso de uma marca da Nestlé. O escopo do estudo abrange a cadeia de valor de um produto agrícola, do campo ao produto final. A figura abaixo mostra diferentes indicadores (da esquerda para a direita): empregos gerados (em Equivalente a Tempo Integral, ETI), impacto econômico (o valor econômico agregado dos empregos, refletido pelos respectivos salários) e impacto social (usando o modelo desenvolvido e descrito neste artigo). Os resultados são apresentados por decil de renda (cada decil representa 10% da população, dos mais pobres aos mais ricos, que estão no 10º decil).
O impacto econômico e o número de empregos são correlacionados, com o primeiro geralmente dando mais peso a salários altos. No entanto, ao observar o impacto social, fica muito clara a existência de efeitos tanto positivos quanto negativos. Vale notar que, neste gráfico, resultados positivos representam impacto negativo. Os trabalhadores das fazendas apresentam o maior impacto negativo neste caso, enquanto os trabalhadores das fábricas da Nestlé têm condições relativamente boas, o que se traduz em impacto positivo. A linha de base contra a qual o impacto social é medido é o salário digno, discutida em mais detalhes no white paper e que também é objeto de pesquisas futuras.
O principal aprendizado trazido por esse novo modelo é que nem todo emprego gera valor social positivo. Empregos a qualquer custo podem não ser a melhor estratégia para a criação de valor social compartilhado, mas existem alavancas na forma de renda, controle e recompensa, além de todos os outros benefícios sociais e condições de trabalho que uma empresa pode oferecer.
Esse modelo também permite que as empresas identifiquem onde geram valor social positivo e negativo relacionado ao emprego. Esse aprendizado é essencial para embasar qualquer estratégia de sustentabilidade alinhada aos ODS, além de mitigar riscos (como licença social para operar, reputação e engajamento dos funcionários). Esse modelo representa um primeiro passo rumo a métricas de sustentabilidade mais robustas no setor privado, permitindo decisões melhores. Ele também contribuiu para o desenvolvimento do Social Capital Protocol, publicado neste mesmo ano.
