Um estudo apresentado durante a World Water Week de 2014 mostrou como associar a pegada hídrica e a valoração de serviços ecossistêmicos para identificar o valor da chuva na região de Santa Cruz, na Bolívia. O estudo foi realizado em parceria com a Forest Trends, a Swiss Development and Cooperation Agency, a Fundacion Natura Bolivia e a Quantis.
Uma publicação recente do Fórum Econômico Mundial sobre o panorama de riscos globais apontou a água como o risco com maior potencial de impacto em nível global. A gestão e a governança da água ainda representam um desafio para a maioria das organizações e comunidades.
O crescente interesse pela valoração de serviços ecossistêmicos e pela pegada hídrica reforça o potencial dessas novas métricas para orientar decisões rumo a escolhas mais sustentáveis.
O estudo em questão, apresentado na World Water Week de 2014 (durante o encontro anual da Water Footprint Network), analisa a dependência do setor agrícola da região de Santa Cruz, na Bolívia, em relação aos serviços ecossistêmicos ligados à água. Samuel Vionnet foi o primeiro autor do estudo, conduzido enquanto atuava na Quantis, e segue em diálogo com a Forest Trends para aprofundar o conhecimento nessa área.
O estudo explorou, em particular, a relação entre os ecossistemas florestais e os produtores de soja, com base em dois serviços ecossistêmicos distintos, mostrados na figura abaixo: a regulação climática local, associada ao provimento de chuva, e o provimento de água doce. Os indicadores de água verde e água azul da Water Footprint Network foram usados para medir esses serviços ecossistêmicos. Os produtores de soja foram o foco inicial da análise por representarem quase metade da pegada hídrica do setor agrícola na região.
A valoração do serviço ecossistêmico da água da chuva partiu de estatísticas locais que relacionam variações de produtividade à precipitação, medindo assim um valor marginal. O valor médio encontrado para a água verde foi de USD 0,05 por m³.
A valoração do serviço ecossistêmico de água doce considerou o valor potencial futuro que ela poderia gerar para os produtores, já que a irrigação ainda não é uma prática difundida na região. Com base em um estudo local, foi estimado o potencial aumento de produtividade proporcionado pela irrigação. O valor médio encontrado para a água azul foi de USD 0,5 por m³, superior ao valor da água verde. Essa diferença também se explica pelo fato de a água azul estar disponível justamente quando as lavouras mais precisam dela, enquanto a água doce costuma ser mais escassa, o que aumenta seu valor.
A relação entre esses dois serviços ecossistêmicos, água verde e água azul, e as florestas foi estabelecida a partir de literatura selecionada que já identificara essa mesma relação em outras regiões, como a Amazônia, já que não havia dados locais disponíveis para esse caso específico. Foram identificados três ecossistemas florestais fundamentais para a manutenção da chuva local (água verde), a floresta andina local, a floresta amazônica e a floresta local de Santa Cruz. A floresta andina tem papel especialmente importante no provimento de água doce.
Essa análise serviu de base para a construção de cenários em nível regional. Foi identificado que a possível redução da chuva causada pelas mudanças climáticas poderia custar ao setor de soja da região integrada de Santa Cruz USD 30 milhões por ano. Também foi identificado que o valor líquido potencial futuro da água doce para o setor de soja pode chegar a USD 462 milhões por ano.
A interpretação dos resultados ainda está em andamento, e um relatório será publicado em breve. Mais informações serão divulgadas nos próximos meses.
